Alfredo Moreira Filho chegou ao Amazonas logo após se formar em agronomia em Viçosa, em 1971, e rapidamente percebeu que o repertório técnico adquirido na faculdade, embora sólido e bem estruturado, precisava ser inteiramente adaptado a um ambiente que tinha muito pouco em comum com as condições estudadas nos livros e nas salas de aula mineiras.
Um território que funcionava por lógica própria
A Amazônia dos anos 1970 ainda era, em grande parte, um território acessível quase exclusivamente por via fluvial, onde distâncias que em outras regiões seriam vencidas em poucas horas de carro podiam exigir dias inteiros de viagem em voadeiras ou embarcações de porte maior, navegando por rios de águas negras e lagos de dimensões continentais.
Essa lógica de deslocamento fluvial criava demandas profissionais completamente novas que nenhum curso de engenharia agronômica ensinava: saber ler um rio, reconhecer cardumes pelo comportamento da superfície da água, escolher o tempo certo para navegar e entender a sazonalidade amazônica como variável central de qualquer planejamento técnico ou produtivo realizado na região.
O desafio técnico de adaptar conhecimento a condições locais específicas
Solos de várzea, clima equatorial sem estações claramente definidas, culturas como o guaraná, que exigiam conhecimento absolutamente local, e uma cadeia produtiva baseada em ribeirinhos e pequenos agricultores com práticas centenárias: tudo isso criava um ambiente técnico que pouco se assemelhava ao das regiões produtoras do Centro-Sul do país.
O engenheiro que chegava ao Amazonas precisava, antes de qualquer coisa, aprender a aprender com o ambiente e com os próprios produtores locais, inversão de papel que exigia humildade intelectual real e disposição genuína para reconhecer os limites evidentes do conhecimento formal adquirido na graduação antes de qualquer intervenção técnica mais significativa no campo.
O perfil humano exigido além do técnico
Além do conhecimento técnico específico, a Amazônia dos anos 1970 exigia engenheiros com perfil humano bastante particular: capacidade de conviver com populações ribeirinhas e indígenas, tolerância a condições logísticas adversas e habilidade de construir confiança real com comunidades que tinham razões históricas mais do que suficientes para desconfiar de qualquer técnico recém-chegado de fora.
Alfredo Moreira Filho, que se adaptou rapidamente à cultura amazônica, incorporando costumes, hábitos e gastronomia local, desenvolveu justamente esse tipo de perfil humano ao longo dos anos de atuação no estado do Amazonas, fator que a introdução do livro descreve como determinante para sua aceitação e sucesso profissional naquela região tão particular.
Como a região formava profissionais que outras regiões não conseguiam
A experiência acumulada por engenheiros que atuaram na Amazônia naquele período histórico era, em muitos aspectos, absolutamente irreproduzível em qualquer outro contexto regional brasileiro, porque combinava escala territorial imensa, diversidade cultural extraordinária e desafios técnicos de uma forma que simplesmente não existia em São Paulo, no Rio Grande do Sul ou mesmo no Nordeste.
Quem sobreviveu profissionalmente àquele ambiente desafiador desenvolveu resiliência, capacidade de improviso e flexibilidade técnica que mais tarde se mostraram valiosas em contextos completamente diferentes, como a gestão corporativa em Brasília, que marcou a fase seguinte de Alfredo Moreira Filho após deixar o Amazonas em 1982 para o Projeto Tucumã.
Uma geração de engenheiros que ajudou a construir uma região
Os engenheiros agrônomos que atuaram na Amazônia dos anos 1970 e 1980, trabalhando em extensão rural e em projetos de colonização como o de Tucumã, fazem parte de uma geração inteira de profissionais que ajudou a construir a infraestrutura técnica e produtiva de uma região ainda em processo acelerado e complexo de ocupação e desenvolvimento no período.
Alfredo Moreira Filho integrou essa geração com formação de Viçosa, atuação em Itacoatiara e Manaus e participação em projetos como o Distrito Agropecuário da Zona Franca, trajetória que o livro “Pequenas Histórias e Algumas Percepções” registra com riqueza de detalhes como parte de uma saga que vai muito além da história pessoal de um único indivíduo e de uma única família.
