Crescimento das Cédulas de Produto Rural e consolidação dos fundos ligados ao agronegócio ampliam a demanda por administração fiduciária, custódia qualificada e escrituração especializadas no setor.
O agronegócio brasileiro atravessa um novo estágio de sofisticação financeira. Depois de décadas apoiado majoritariamente em crédito bancário e em linhas oficiais de fomento, o setor passou a recorrer, em ritmo crescente, a instrumentos do mercado de capitais para financiar safras, maquinário, armazenagem e expansão produtiva. O estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) atingiu R$ 565 bilhões em maio de 2026, alta de 13% em relação ao mesmo período do ciclo anterior, segundo dados compilados pelo setor. Em paralelo, os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, os Fiagros, consolidaram uma trajetória de expansão que chegou a dobrar o patrimônio líquido da indústria em doze meses, alcançando R$ 40,9 bilhões, de acordo com levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA). O movimento amplia a relevância dos agentes responsáveis por administrar, custodiar e registrar esses ativos, papel que cabe a instituições como a ID CTVM.
Da cédula em papel ao título escritural
Historicamente, a CPR era emitida em papel e negociada de forma pouco padronizada, o que dificultava sua circulação no mercado secundário. A Lei do Agro, sancionada em 2020, alterou esse cenário ao determinar o registro eletrônico de cédulas com cláusulas de correção ou indexação, exigindo depósito centralizado, controle de titularidade sob regime fiduciário e a atuação conjunta de escriturador e custodiante. A mudança aproximou o instrumento dos padrões já consolidados para debêntures e outros papéis de renda fixa, favorecendo tanto a segurança jurídica de produtores e credores quanto o apetite de investidores institucionais por exposição ao crédito do agronegócio.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a digitalização da CPR representa um marco na maturidade do financiamento rural brasileiro.
“A escrituração eletrônica trouxe para o agro o mesmo nível de rastreabilidade e conformidade regulatória que já existe em outros mercados de dívida privada. Isso reduz o risco de fraude documental, agiliza a negociação secundária e amplia a confiança de quem financia a produção”, afirma o executivo.
Fiagros ampliam a demanda por governança e diligência
O mesmo raciocínio se aplica aos Fiagros, veículo criado para permitir que investidores de varejo e institucionais aloquem recursos diretamente em cadeias produtivas do agronegócio, seja por meio de participações societárias, direitos creditórios ou ativos imobiliários rurais. À medida que a base de cotistas cresce, hoje próxima de um milhão de investidores segundo dados da própria ANBIMA, e novas classes de fundos são estruturadas sob a Resolução CVM 175, a complexidade operacional aumenta na mesma proporção. Conciliação bancária em tempo real, auditoria contínua de lastro, controladoria de carteiras compostas por ativos ilíquidos e monitoramento de garantias passam a ser exigências centrais, e não apenas etapas burocráticas de retaguarda.
Nesse contexto, a atuação de administradores fiduciários e custodiantes qualificados ganha peso estratégico. Cabe a esses agentes assegurar que os recursos captados pelos fundos sejam efetivamente aplicados nos ativos previstos em regulamento, que as garantias vinculadas às operações estejam formalizadas e que os investidores recebam informações periódicas confiáveis sobre o desempenho das carteiras.
Tecnologia proprietária sustenta a expansão do crédito rural
A ID CTVM opera com infraestrutura de tecnologia própria, estruturada em um ecossistema de portais integrados por APIs, entre eles o Portal do Gestor, o Portal Nota Comercial e o Portal do Desenvolvedor, que permitem acompanhar em tempo real a movimentação de fundos, cédulas e títulos de crédito privado ligados ao agronegócio. A instituição é habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada, controladoria, escrituração e distribuição, além de atuar na representação de investidores não residentes, o que amplia o acesso de capital estrangeiro a operações estruturadas do setor. A ID CTVM também foi autorizada pelo Banco Central do Brasil a operar como a primeira corretora do país com conta de pagamentos integrada nativamente à própria infraestrutura, recurso que permite liquidar operações de crédito rural sem depender de intermediários bancários externos.
Cerca de 74% da carteira sob administração da companhia foi constituída organicamente dentro da própria instituição, o que, segundo a ID CTVM, reflete a capacidade de originar e acompanhar operações complexas, como as ligadas ao financiamento da produção rural, sem depender de estruturas terceirizadas.
Para Balassiano, o papel da infraestrutura fiduciária tende a se tornar ainda mais evidente à medida que o agronegócio brasileiro amplia sua dependência do mercado de capitais.
“O produtor rural e o investidor não enxergam diretamente o trabalho de custódia, controladoria e escrituração, mas é esse trabalho que garante segurança jurídica à operação do início ao fim. Quanto mais sofisticado o instrumento financeiro, maior a exigência sobre quem sustenta essa estrutura por trás das operações”, destaca o diretor da ID CTVM.
Próximo ciclo depende de escala com controle de risco
A expectativa entre especialistas do setor é que o financiamento estruturado do agronegócio continue crescendo nos próximos anos, impulsionado pela necessidade de capital de giro, pela expansão da fronteira agrícola e pela busca de produtores por alternativas ao crédito bancário tradicional. Esse cenário deve exigir das instituições fiduciárias capacidade de operar em escala sem abrir mão de rigor regulatório, à medida que cresce o volume de cédulas, cotas e recebíveis vinculados à produção rural sob custódia e administração no país. Para a ID CTVM, essa combinação entre crescimento e conformidade define o próximo estágio de maturidade do crédito privado voltado ao agronegócio brasileiro.
