Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em saúde mental e relações familiares, observa que uma das formas mais silenciosas de abuso emocional é aquela que faz a pessoa duvidar daquilo que ela mesma viveu. O gaslighting age justamente nesse ponto sensível, distorcendo a percepção da realidade até que a vítima passe a questionar a própria memória e o próprio julgamento. Por ser sutil, esse mecanismo costuma demorar a ser reconhecido.
Falar sobre o assunto ajuda quem sente que algo não está certo, mas não consegue explicar o desconforto. Quando a confiança na própria percepção se enfraquece, fica difícil reagir. Entender como essa dinâmica funciona é um passo importante para recuperar a clareza e o cuidado consigo mesma.
Quando a realidade começa a ser negada
O gaslighting se sustenta na negação repetida de fatos. A pessoa relata algo que aconteceu e ouve que está exagerando, que entendeu errado ou que aquilo nunca ocorreu. Aos poucos, essas respostas vão criando uma sensação de insegurança. A vítima passa a achar que talvez esteja mesmo confundindo as coisas, mesmo quando suas lembranças são precisas.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que essa negação constante mexe com algo profundo. Quando alguém de confiança insiste que nossa percepção está equivocada, começamos a duvidar do próprio funcionamento mental. Esse abalo na autoconfiança é o terreno em que o gaslighting se firma, deixando a pessoa cada vez mais dependente da versão apresentada pelo outro.
O efeito sobre a autoestima e a autonomia
Com o tempo, a dúvida constante desgasta a autoestima. A pessoa que vive sob gaslighting tende a se sentir confusa, insegura e incapaz de tomar decisões sozinha. Ela passa a buscar no parceiro a confirmação do que é real, justamente porque foi levada a desconfiar da própria capacidade de julgar. Esse movimento reduz sua autonomia e fortalece o vínculo de dependência.
A leitura psicanalítica ajuda a compreender o que se passa nesse processo. Não se trata de fraqueza, e sim de um efeito previsível diante da manipulação prolongada. Taiza Tosatt Eleoterio reforça que reconhecer esse padrão não significa culpar quem o sofre, mas devolver à pessoa a noção de que sua percepção tem valor e merece ser levada a sério.
Sinais que ajudam a reconhecer
Alguns sinais ajudam a perceber o gaslighting. Sentir-se constantemente confusa após conversas, pedir desculpas o tempo todo, ter a impressão de que nunca acerta e duplicar o esforço para registrar o que de fato aconteceu são pistas importantes. Quando a pessoa começa a anotar acontecimentos só para ter certeza de que não está enlouquecendo, algo merece atenção.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que nomear o fenômeno já oferece alívio. Saber que existe um nome para aquela experiência ajuda a pessoa a entender que não está inventando o sofrimento. Esse reconhecimento é o primeiro movimento em direção a recuperar a confiança naquilo que se sente e se percebe.
Recuperar a confiança na própria voz
Sair desse lugar exige reconstruir, aos poucos, a confiança na própria voz. Conversar com pessoas de fora da relação ajuda a obter referências mais honestas sobre a realidade. Quando alguém de confiança valida o que a pessoa percebe, a névoa criada pelo gaslighting começa a se dissipar, e a percepção volta a ganhar firmeza.
Esse processo costuma ser mais consistente com apoio. A escuta de um profissional oferece um espaço seguro para reorganizar as ideias e fortalecer o senso de realidade. Taiza Tosatt Eleoterio conclui que recuperar a confiança na própria percepção é um cuidado essencial, porque devolve à pessoa a base sobre a qual ela poderá tomar decisões mais livres.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
